Do passivo ao ativo: bordado que fala!

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Há um bom tempo venho acompanhando o trabalho lindo das meninas do Clube do Bordado. Achei que seria muito legal saber um pouquinho mais sobre elas, como desenvolvem seus trabalhos, o que pensam a respeito do artesanato hoje em dia e de que forma se relacionam com ele. Por isso hoje, a entrevista do dia é com elas!

Pra quem não conhece, o Clube do Bordado é formado por 6 mulheres. Camila Gomes Lopes (@sunlovefun) é designer de moda, aprendeu a bordar com a mãe ainda na infância e foi a professora da maioria das meninas do Clube. Renata Dania (@renatadania) e Laís Souza (@la.lais), designers e amigas de longa data, foram as responsáveis por convidar e organizar os encontros no apartamento que dividem (que acabou se tornando o “QG” do Clube). Vanessa Israel (@vanessa_israel) e Marina Dini (@marinadini) também são designers de moda e sempre foram interessadas pelo feito à mão. E, por fim, Amanda Zacarkim (@donamanda), jornalista, me contou que nunca tinha feito trabalhos manuais até se juntar às amigas e aprender a bordar para sair da zona de conforto do ler e escrever.

Elas me contaram que o Clube do Bordado surgiu de forma bem despretensiosa: amigas se uniram, começaram a bordar, aprender, ensinar e discutir assuntos do cotidiano. Em meio a quitutes, bordados e muita conversa, elas encontraram assuntos em comum que permeavam esses encontros. A partir de então, seus bordados passaram a ter formas, características próprias e muita personalidade, envolvendo temas gritantes e contemporâneos como o feminino, a relação com o próprio corpo, a sexualidade e tantos assuntos que ainda são tratados como tabu, passando de um pólo passivo, onde o bordado é visto como simples enfeite ou decoração, para o pólo ativo, que comunica, expressa, fala sobre direitos e questões culturalmente ocultadas.

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Dá uma olhada no bate papo!

Como o grupo surgiu?
O Clube do bordado começou em agosto de 2013, como uma reunião despretensiosa de seis amigas. Os encontros começaram a partir do desejo de aprender a bordar e ter uma atividade nova dentro das nossas rotinas. A Renata e Laís, que moram juntas, pediram para a Camila algumas aulas em casa e, naturalmente, outras amigas se interessaram em participar. Semanalmente nos encontrávamos na casa das meninas para bordar, trocar ideias, compartilhar quitutes, grandes e pequenas crises e acontecimentos do cotidiano.

Passamos quase um ano com o Clube como um ponto de encontro divertido entre nós para aprender os pontos do bordado, testar técnicas e, acima de tudo, nos encontrar e colocar a conversa em dia. Afinal, conseguir encontrar as amigas semanalmente numa cidade como São Paulo já é uma vitória e tanto! Os primeiros bordados foram presentes especiais que fizemos para nós mesmas, nossa família e amigos mais próximos. E a partir deles, vimos que algumas temáticas eram constantes no trabalho de todas, como o universo feminino e nossa relação com os corpos da vida real. Foi então que, em junho de 2014, surgiu a primeira oportunidade de participarmos de uma feira, a PopPorn, e vendermos nossos trabalhos. Para ela, preparamos nossa primeira coleção, Soft Porn, que tratava da sexualidade de uma forma delicada e feminina.

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Da coleção Soft Porn

De lá para cá, participamos de diversas feiras, criamos coleções temáticas, realizamos encontros abertos e cursos para ensinar e aprender coletivamente. No fim de 2015 realizamos nosso primeiro curso online e com ele conseguimos chegar a diversos públicos espalhados pelo Brasil, o que foi uma experiência instigante para nós.

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Parte da série de bordado exclusivo para um casamento

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De que maneira a vida pessoal influencia nos bordados?
De forma completa! Cada uma de nós tem personalidade e referências que passa para seus bordados. Sempre contamos com a opinião e suporte umas das outras, mas na hora de criar o processo é individual e mergulhado na vida e no momento de cada bordadeira.

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Alguma de vocês trabalha só com o bordado? Como foi a transição do processo?
Camila: Bordo desde pequena, mas comecei a vender bordados quando fiquei desempregada, antes do Clube existir. Não era como hoje, eram outros tipos de bordados, em outras superfícies, mas já dava pra perceber que tinha uma demanda. O Clube começou justamente pelo interesse das amigas em aprender a bordar, e elas foram minhas primeiras alunas. Na mesma época do começo desses nossos encontros, comecei a trabalhar como vendedora em uma loja, aos fins de semana, e fiquei nessa rotina de bordados durante a semana e shopping aos fins de semana durante dois anos. À medida em que o Clube foi crescendo, fui me preparando para sair da loja e me dedicar completamente ao bordado e aos cursos que fazemos, e aí as oportunidades foram surgindo e acabei me demitindo no final do ano passado. Hoje posso dizer que vivo só do Clube.

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Bordado da nova coleção “Bordados Botânicos”
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Bordado da nova coleção “Bordados Botânicos”

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Vocês acham que o artesanato hoje em dia, conquistou um espaço como arte contemporânea?
Amanda: Esse espaço vem sendo reconhecido e conquistado aos poucos. Muitos(as) criadores(as) contemporâneos(as) têm se voltado ao fazer com as mãos, experimentando a materialidade dos objetos, formas e texturas em contrapartida às soluções prontas que a tecnologia oferece. E se a arte parte de uma dúvida ou de um questionamento dos padrões vigentes, uma das formas atuais de se fazer arte está mesmo ligada a resgatar processos, estar atento(a) ao tempo que as coisas levam para serem feitas à mão. Nesse momento, há cada vez mais espaço para artistas que usam o artesanato em suas obras e é importante também criar caminhos para que se reconheça como arte o trabalho de artesãos pelo mundo todo. Isso porque devido à sua ligação com culturas e saberes tradicionais, o artesanato ainda é comumente valorizado em seu papel histórico e antropológico, mas não estudado ou comparado às belas artes. O resultado disso é que, em museus consagrados, é comum vermos adereços bordados, teares e peças de tapeçaria como um recorte de determinada época ou contexto social, algo ainda distante das produções contemporâneas. São em galerias, nas ruas a céu aberto, em institutos que trabalham arte e tecnologia e, claro, na internet, que essa produção atual é descoberta como arte contemporânea.

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Love Porn

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Por que, na opinião de vocês, o artesanato é importante nos dias atuais?
Renata: Temos notado um crescimento constante do pequeno empreendedor e dos trabalhos manuais nos últimos anos. Em um movimento oposto à produção em massa, o artesanato se diferencia através dos processos, seja na concepção do produto ou na maneira de comprar e vender. Os valores imateriais que estão envolvidos em cada parte do processo também tem sido valorizados, como oportunidade de se desligar da rotina atribulada e melhorar a saúde mental através das artes manuais. Fatores como tempo dedicado à atividade, compra consciente, inovação, exclusividade e possibilidade de customização são grandes diferenciais do “feito à mão”. Além de promover bem estar, o artesanato é importante para a área econômica, já que movimenta o comércio local e promove desenvolvimento social.

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Gostou?
As meninas também organizam oficinas com frequência.
Tem mais infos no facebook delas aqui e instagram aqui.
:)

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