O inconsciente coletivo da geração feminina – 3 contos

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Quando percebi que poderia me expressar através do trabalho manual, enxerguei liberdade. Vi meus pensamentos voando livres e soltos. Eu sempre tive um “pouquinho” de dificuldade em me expressar, especialmente falando. Passei muito tempo achando que isso era um grande problema e que eu deveria mudar meu jeito de ser e aprender a ser mais expansiva, falar com as pessoas na rua, etc etc. Acontece que não é bem assim. A gente passa uma vida sofrendo pelo que se é, simplesmente porque insistimos em não nos aceitar e sempre achar que “ser daquele jeito é mais legal”. Aos poucos, eu entendi que há muitas maneiras de falar, de gritar… e foi com essas histórias que tive mais certeza ainda de que estava no “caminho certo”.

Quando criança, fui apaixonada por contos de fadas e histórias fantasiosas. Um pouco mais velha, senti muita vontade de fazer uma pesquisa em cima dos contos de fadas nas minhas aulas de Psicologia (sim, cursei um ano de psicologia!).
Acabei deixando isso tudo de lado e quando voltei a crochetar me encontrei novamente com todas essas histórias na minha frente, assim, me jogando na cara que nós somos o que somos e sempre vamos nos reencontrar com nossos interesses na vida, mesmo que eles pareçam perdidos ou esquecidos.
Voltei a reler contos, mitos, histórias.. e agora sim, tentando enxergar os profundos significados de cada um. Foquei nas histórias que relacionam mulheres, fio e comunicação. Um artigo interessantíssimo sobre o assunto e que acrescentou tanto nas minhas leituras foi O Tao da Teia, de Ana Maria Machado, que até já citei por aqui.
Percebi que todas essas histórias não são apenas simples contos para diversão infantil, e falam muito da comunicação da mulher através de artes manuais, do sistema patriarcal, empoderamento feminino e o papel da mulher no comércio e na história.

Quando falo sobre inconsciente coletivo é exatamente isso que quero dizer. Todas essas histórias de mulheres que foram caladas e que só tinham a tecelagem como forma de expressão e válvula de escape emocional me pareceu familiar, como se já fizesse parte de mim de alguma maneira, nas devidas proporções.

1. Rumpelstilskin

A história de Rumpeltilskin que vocês provavelmente já conhecem é mais ou menos assim: O rei procurava uma mulher “perfeita” para se casar. Ao saber disso, o moleiro disse ao rei que sua filha, além de linda, tecia fios de palha e transformáva-os em ouro. O rei então trancou a filha do moleiro em um dos quartos do palácio cheio de fios de palha e ordenou que durante a noite ela transformasse tudo em ouro. Se assim o fizesse, ela se tornaria a rainha, caso contrário, morreria. Desesperada e solitária no quarto, ela pede por ajuda. Um homenzinho aparece e se oferece para fazer este trabalho, pedindo em troca seu primeiro filho com o rei. Ela aceita. A palha transforma-se em ouro e ela casa-se com o rei. Quando tem seu primeiro filho, o homenzinho reaparece cobrando sua dívida. Ao implorar por uma nova chance, ele lhe dá o desafio de descobrir seu nome, assim sua dívida seria paga. Com a ajuda dos animais da floresta, a rainha descobre seu nome, Rumpelstilskin, fazendo com o que o homenzinho fiquei enfurecido e vá embora para sempre.

O que acontece é que, lendo sobre esses contos, descobri que existe uma versão anterior (10 anos antes do conto publicado pelos Irmãos Grimm) a essa que já conhecemos e que, (olha só) foi escrita por uma mulher: Mademoiselle L`Heritier, em 1798. A história muda bem pouquinho mas tem uma diferença muito significativa: ao contrário da primeira história, a moça só sabia tecer ouro. Por mais que tentasse produzir linho, não conseguia. Então ela ficou muito triste e passou dias tentando tecer o linho cru. Foi então que apareceu o homenzinho. Ele lhe disse que logo um príncipe apareceria para casar-se com ela e levá-la embora dali. Então ofereceu sua ajuda em troca do seu primeiro filho. Assim aconteceu: o príncipe apareceu, casaram-se, tiveram um filho e, como na primeira história, o homenzinho reaparece, ela descobre seu nome e ele se vai.

É importante nesse contexto entender a época em que essas histórias se deram. A perspectiva feminina foi completamente retirada no primeiro conto, dando a ela uma postura submissa e opressiva (imposta pelo pai e pelo rei), onde ela só conseguiria se casar se fizesse o impossível para conquistar o homem (tecer ouro), diferente da segunda, onde o homenzinho lhe avisa que o homem passará e se casará com ela, mesmo não conseguindo tecer o linho. O ponto de vista feminino e realista daquela época (no conto de Mademoseille) foi substituído por uma visão machista onde a mulher não é capaz de criar o que o homem impôs ser necessário a ele, iniciando ou compactuando com o papel diminuído da mulher no mercado.

2. Aracne

Aracne era uma bela moça que bordava e sabia tecer como ninguém. Sua popularidade como bordadeira e tecelã cresceu e logo, Atena, a deusa das obreiras e artesãs, procurou saber quem era a famosa tecelã que diziam tecer tanto ou melhor do que ela. Assim, Aracne a desafiou para um concurso de tecelagem, para definir quem era a melhor. As duas teciam rapidamente, mas Aracne não só venceu Atena, como ousou usar sua tapeçaria produzida para ilustrar os crimes cometidos pelos deuses contra mulheres, incluindo Zeus, pai de Atena. Furiosa, Atena puniu Aracne, transformando-a em uma aranha, condenada a tecer para sempre.

O que me fascina nesse mito grego e em outros contos é o fato da utilização da tecelagem como forma de comunicação e denúncia, maneira em que as mulheres das épocas (em que as histórias eram contadas e suas vozes eram vetadas) tinham de comunicar.

3. Tereu

Também na mitologia grega, Tereu casou-se com Procne, irmã de Filomena. Procne teve um filho e sentia muita falta de sua irmã. Um dia, Tereu deciciu buscar Filomena para que ela pudesse ir ao encontro de sua irmã. No caminho de volta para casa, Tereu violentou Filomena e cortou sua língua, para que ela não pudesse contar a ninguém o acontecido. Trancou-a numa torre e retornou a sua casa dizendo que ela havia falecido na viagem.
Em seu cativeiro, Filomena teceu um tapete contando o acontecido e conseguiu enviá-lo secretamente a sua irmã. Logo, Procne libertou-a e assim tramaram sua vingança.

Essas histórias e muitas outras que já li, tem em comum a atividade têxtil feminina como substituta da expressão oral ou fazem-se parte de um momento crucial de suas vidas, sendo dependentes ou utilizando da técnica para sobrevivência. Ao mesmo tempo, essas mulheres utilizavam esse trabalho, criando momentos de união feminina, onde as mulheres passavam o dia tecendo, bordando, tricotando, separadas dos homens, cantando, contando histórias e compartilhando suas vidas umas com as outras, criando assim, um espaço libertador, mesmo que pequeno, para suas expressões e opiniões.

Fontes:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142003000300011
http://eventosmitologiagrega.blogspot.com.br/2011/01/aracne-artesa.html
http://www.trabalhosfeitos.com/ensaios/o-Mito-De-Tereu/50388524.html

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