Desescolarização e a educação

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Lembram quando falei sobre as escolas ocupadas e educação (aqui)? Pois bem. Há um tempo tenho me interessado muito a respeito deste tema, especialmente em meio às minhas crises relacionadas à trabalho.

Identifiquei que boa parte da minha frustração (e das pessoas ao meu redor) vinha não só por ter escolhido a profissão errada ou não ter conseguido o emprego dos “sonhos”. Comecei a entender que a coisa toda vinha de muito mais tempo que eu imaginava: da minha infância. Como falei no outro post, percebi que na escola que eu frequentava, de ensino tradicional, fui muito podada criativamente falando. Faltava ali um incentivo ao pensamento crítico, assim como o foco no ser humano em si. A maioria dos sistemas de educação tradicionais do Brasil tem a preocupação apenas com a parte “prática”, ensinando matérias convencionalmente tidas como essenciais.

Nessas idas às ocupações das escolas, percebi o discurso dos alunos se modificando. Aos poucos, eles não só se deram conta do poder que têm, como também perceberam o que, de fato, estavam aprendendo até então, no dia a dia dentro da escola. Com a experiência da ocupação, da organização própria, da resistência, manifestações e especialmente das aulas “alternativas”, eles tiveram a percepção do que realmente importa: o pensamento crítico e o olhar para dentro. Se perguntar o que estão fazendo ali e porquê é essencial na vida de qualquer ser humano. O que funciona para um, pode não funcionar para o outro. Essa preocupação específica com cada indivíduo deveria ser tratada de maneira fundamental dentro da educação.

Em meio a tudo isso me lembrei da Ana Thomaz. Conheci ela há um tempinho atrás, quando ainda trabalhava na editora, através de um vídeo produzido pelo Continue Curioso. Me emocionei e me identifiquei com tudo o que ela falava ali. A partir de então, acabei pesquisando mais sobre ela e descobri que, além de educadora, professora da técnica Alexander, ela também é pesquisadora e promove vivências, trabalhando a favor da mudança de paradigma da educação e do convívio em comunidades. Ela também é idealizadora do projeto Amalaya, em Piracaia, onde as vivências acontecem. O vídeo é esse aqui:

Nesse breve vídeo, ela explica seu processo, desde tentar criar alternativas para trabalhar e viver, observando atentamente cada movimento, da forma como nos alimentamos, modo de vestir, atitudes, até chegar na mudança de paradigmas, questionando a ideia em massa que temos de tentarmos nos encaixar em alguma profissão ou dentro de um mercado de trabalho específico.

Perguntou aos seus alunos o que eles fariam se não precisassem ganhar dinheiro. Na ausência de respostas, concluiu: “[ninguém soube responder] porque você praticou uma vida inteira de ausência de você mesmo e nessa prática, não tem como saber ‘é óbvio que quero fazer isso’. E não ‘isso’ exatamente uma profissão, mas ‘isso’ que vai te fazer olhar, te levar a algo, a experimentações, que assim, vai te levar a uma profissão ou a troca de recursos […] se permitindo entender onde o seu olhar alcança […] entender o que é singular em você, entender que você tem um alcance que só você e mais ninguém tem e que qualquer coisa que aconteça faz parte da sua experimentação […] Temos que amadurecer, investir no que interessa e quem está fazendo a mudança fala assim ‘eu tô pronto pra maturidade e tô pronto pra ser responsável pela minha escolha de vida.'” <3

Ainda na minha “pesquisa” sobre ela, encontrei o vídeo “O que aprendi sobre a desescolarização”, produzido pelo O Lugar. Nesse depoimento (um pouco mais longo), Ana conta um pouco de como seus questionamentos à respeito da educação começaram, não se sentindo preparada para nada, passou a desconfiar da escola. Nesse processo de desenvolvimento enquanto bailarina e educadora, Ana foi investigando esses caminhos e, de certa forma, “tirando a escola de dentro de mim”, como ela mesmo conta. Diante de algumas reflexões e muita conversa com seu filho, que insistia em não querer frequentar a escola, Ana optou por manter uma educação mais livre para seu filho, fora de lá. Aqui ela conta como funcionou esse processo:

Das muitas coisas interessantes que ela comenta, redijo aqui as que mais me chamaram atenção: “Na ameaça a gente não cresce, não se desenvolve”, “Nossa meta é potencializar nossa potência, é a existência plena”. Sobre a experiência de fazer um parto: “até então eu estava muito na garantia, eu estava olhando se eu podia garantir que o meu filho estava num bom caminho. Ali eu rompi com a garantia, não se tem garantia na vida”. Falando sobre as diversas criações de conceitos: “eu percebo que crio esses conceitos e não porque eu tenho um processo excepcional, muito pelo contrário, tive uma formação educacional bem mediana […] não tem nada de especial do que ser ‘ser humano’ pra esse processo estar acontecendo em mim, que é um processo de você sentir que a criação está dentro de você, no encontro. Não é mais ‘ai preciso fazer aula de tal [coisa] senão vou me sentir burra’, que foi minha primeira fase inteira de 0 aos 20 anos.”
Enfim, vale muito assistir/escutar (rola dar o play e ficar escutando enquanto trabalha!).

Não acho que todas as mães devam tirar seus filhos das escolas e seguir na direção de Ana. Esse é um depoimento particular dela, que soube olhar e escutar os pedidos internos (e externos) do seu filho, pra que ele se desenvolvesse a partir de coisas já existentes (ou não) dentro dele, baseado em vontades, ideias, emoções, sentimentos, etc.
Vejo por aí muitas histórias de crianças que vivenciam situações problemáticas dentro das escolas que frequentam, tendo problemas de desenvolvimento, de socialização, entre outros. Os pais, sem esse costume de olhar além, acabam insistindo, achando que o filho de fato não se encaixa no mundo, ou que está sendo desobediente ou que tem algum outro tipo de problema… quando na verdade, olhar para a criança de fora, como um ser humano livre que pode se encaixar em outros lugares, outras escolas, ter tipos diferentes de relações, pode ser a saída, ou melhor, o encontro dele com ele mesmo. Sem cobranças padronizadas de uma sociedade com ensino pré-estipulado, não focado no ser humano em si. E assim, podendo se desenvolver de uma melhor maneira.
Como disse no começo, o que serve pra um pode não servir para o outro. O importante é enxergar de fato o que está acontecendo ali, olhar para ele, realmente tentar entender, e acima de tudo, diante de um problema, tentar experimentar e encontrar caminhos mais próximos ao ideal para ele.
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