#tbt – Visceral

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Foto Renata Ottoni

Resolvi criar uma categoria aqui para o blog onde posso postar referências antigas ou trabalhos já realizados. Então, toda quinta-feira vai rolar o Throwback Thursday (#tbt). Muitos de vocês já devem estar familiarizados com o termo, já que ele é muito comum no Facebook e Instagram e usado justamente para postagem de fotos e/ou lembranças antigas.

O primeiro #tbt é de um trabalho que fiz há um tempinho e que tenho muito amor: o Visceral. Esse trabalho faz parte do meu projeto “A rua é minha tela”, que consiste na instalação de desenhos e frases em crochê nos muros de São Paulo ou de cidades em que passo.

Na época em que a ideia do Visceral surgiu, eu estava viciadíssima nos álbuns “Brinquedo de Tambor” e “Dois Cordões”, da cantora permambucana Alessandra Leão. Em especial, na primeira música que conheci dela (autoria dela e de Juliano Ferreira Holanda): “A Baladeira”.

As letras dela sempre me intrigaram muito, e essa em especial não saiu da minha cabeça por um bom tempo. Perguntar-me onde meu medo dói não era algo que eu costumava fazer com frequência. Acredito que muitas pessoas também não o façam.
Percebi que passamos a vida fugindo de nossos medos e procurando meios de evitá-los. Muitas vezes vivemos ligados a traumas, rancores e assuntos pendentes que deixamos adormecer, achando que foi finalizado. Mas, com o tempo, acabamos nos deparando novamente com os mesmos problemas, repetidamente. Entendi que é preciso enfrentar estes problemas, encarar o medo, e só assim conseguiremos liberá-los de fato. Ir de encontro à essas questões faz parte de um processo incrível de liberação e foi nesse ponto que cheguei em minhas reflexões nas longas viagens de ida e volta ao interior.

Normalmente, quando vou visitar minha família, costumo ir de ônibus. São 5 horas de viagem até lá. Por muito tempo fazia contas e mais contas sobre quantas horas da minha vida eu perdia nesses trajetos e ficava um pouco frustrada pensando em tudo o que eu poderia fazer nesse tempo todo (10 horas de viagem no total em um final de semana) ao invés de estar ali parada, dentro de um ônibus. Foi então que, além dos livros e das musiquinhas no celular, passei a levar também fios, agulhas de crochê e… meu inseparável caderninho.

Na maioria das vezes, eu não consigo dormir no ônibus (não me pergunte porque!). Sempre fico pensando em mil coisas, tendo mil ideias até chegar no meu destino. Assim, com esse tempo “sobrando” e junto com meu caderninho, essas viagens acabaram se tornando muito produtivas. Foi quando fiz o desenho do Visceral: um coração pulsante com veias, artérias, vísceras, e a frase “onde é que teu medo dói?” cortando-o ao meio.

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Cheguei em casa e logo comecei a transformar esse desenho em crochê. Juntei folhas e fiz um grande desenho no tamanho real que gostaria que esse trabalho tivesse. Também comecei a pesquisar muros e logo achei o ideal: um muro próximo ao Sesc Pinheiros, no Largo da Batata.

Fiquei empolgadíssima com a instalação desse trabalho, especialmente sobre o que ele significava pra mim. Junto comigo, foram duas amigas pra me ajudar na instalação e também para registrar com fotos e vídeos: Re Ottoni e Ju Mendes. As duas fizeram fotos que amei e a Re fez um vídeo lindo que “vira e mexe” eu assisto de novo:

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Fotos Juliana Mendes
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Foto Re Ottoni

Esse trabalho me rendeu muitas alegrias: várias pessoas desconhecidas fotografaram diariamente a instalação e postavam no Instagram/Facebook respondendo a pergunta, ou simplesmente refletindo sobre (é a recompensa maior!); saiu uma matérinha fofa na revista Vida Simples sobre a obra; fui convidada para expor uma réplica do Visceral na Casa TPM de 2015 (evento da Revista TRIP e TPM com debates relacionado ao universo feminino); entre outras recompensas maravilhosas.

Na exposição para a Casa TPM, a instalação da obra tornou-se interativa: ao lado do Visceral, papéizinhos foram colocados para que as pessoas respondessem à pergunta “Onde teu medo dói?” e pregassem com um alfinete ao redor do coração. Posso dizer que li cada papelzinho daquele muito feliz e, ao mesmo tempo emocionada, por ter provocado indiretamente esses questionamentos dentro de cada um que passou por ali.

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Infelizmente, depois de um tempo, o coração foi retirado do muro, pois, uma nova instalação seria feita ali. Por sorte, os idealizadores desse novo projeto, retiraram o coração com cuidado e me devolveram inteirinho. Com uma viagem para o Rio de Janeiro marcada, esse coração teve um novo rumo: Rua Sorocaba, no bairro de Botafogo, RJ.

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Quem faz trabalho nas ruas, especialmente intervenções sabe como é: a rua é viva… e por isso algumas coisas tem seu tempo de duração reduzido. Uns dias depois dessa instalação, me contaram que ela também foi retirada. Desapego é um item fundamental para o meu trabalho, acredito ter aprendido a lidar com isso! :)

Por fim, as pessoas começaram a me perguntar sobre a obra e muitos manifestaram a intenção de tê-las em sua própria casa. Foi quando criei a versão mini do Visceral e resolvi fazer uma versão dessa para cada peça que eu colocasse nas ruas. Uma forma de eternizar minhas expressões, travestidas em fios e sentimentos.

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Enfim, é por tudo isso que tenho tanto carinho por esse trabalho. Ele veio, assim como a maioria das minhas inspirações vem. Por impulso, por instinto, bem de lá do fundo, do âmago, dos sentimentos mais profundos… é visceral.

 

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5 comentários sobre “#tbt – Visceral

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