A educação que vi nas escolas

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Foto Gabriel Uchida

Desde que comecei a trabalhar efetivamente com crochet, tenho pensado muito a respeito da educação no Brasil em geral. Explico: depois das “boas e velhas” crises com trabalhos tradicionais, senti que precisava descobrir de alguma maneira algo que eu amasse fazer. Até aí não temos nada de novo. O que aconteceu é que, no meio dessa crise toda, intuitivamente comecei a procurar indícios no meu passado que me dessem dicas sobre o que era essa tal coisa que eu tanto procurava. Foi quando resolvi passar uma semana na casa dos meus pais. Lá fucei em tudo que pude e, no fundo de um baú bem antigo (que já existia antes mesmo da minha infância) encontrei: linhas, barbantes, lãs emaranhadas, faixinhas de cabelo, bolsinhas, acessórios, retalhos… tudo em crochet, que eu mesma tinha feito quando criança/adolescente. Peguei o que tinha ali, trouxe tudo embora comigo e nunca mais parei de crochetar.

Aí vocês me falam: ok, Karen, mas o que isso tem a ver com educação?
Explico novamente: vivemos em uma sociedade onde a maioria das coisas são impostas indiscutivelmente. Estudei em escolas tradicionais minha vida toda, incluindo faculdade e pós graduação (as últimas relacionadas a design). Hoje, eu desenvolvo projetos que utiliza o crochet como base e, para chegar nisso, eu precisei fazer uma revolução na minha mente e resgatar especialmente sentimentos e sensações da minha infância, lá atrás, na época em que eu mais me expressei naturalmente, onde meus desejos latentes eram dos mais genuínos.
Lembrei-me que, quando criança (por volta dos 5 ou 6 anos de idade), eu era muito criativa, fazia desenhos dignos da atenção e elogios dos professores, tirava notas altas na aula de artes (no único ano em que tive aula de arte no ensino fundamental) e me via sempre sonhando, imaginando, criando mil coisas. Eu me lembrei de algumas aulas em específico, da minha alegria de criar e produzir coisas. Coisas que deixei pra trás, quando passei pra segunda série e fui estudar matérias “básicas e fundamentais”. Todo o incentivo relacionado não só a arte mas à atividades diferenciadas me foram podadas por volta dos 7 anos de idade, assim como minha criatividade e a necessidade de criação.

Me pego a pensar como teria sido meu desenvolvimento pessoal e profissional caso essas matérias (sim, fundamentais pra mim), não tivessem me sido tiradas. Felizmente, hoje em dia, vejo um aumento pela procura por (e também pelo surgimento de novas) escolas com sistemas de ensino mais livres e menos tradicionais (como as antroposóficas Waldorf, construtivistas Montessori, Casa dos Pandavas ou mesmo a Desescolarização, que Ana Thomaz experimentou com seu filho – mas esse assunto é para um outro post!).

Hoje estamos vivendo uma época horrível e ao mesmo tempo maravilhosa aqui no Brasil. Nosso digníssimo governador decretou o fechamento de mais de 400 escolas no estado de São Paulo, sem muitas explicações, impondo apenas, uma “reorganização”. Mas o que aconteceu mesmo foi uma coisa incrível: alunos unidos, ocupando escolas, gritando pelos seus direitos, indo pras ruas protestar, simplesmente manifestando.

Ontem estive na E. E. Fernão Dias Paes, escola ocupada em Pinheiros. Ao me aproximar já pude ver muitos cartazes nas grades: Ocupa, Ocupar é Resistir, Escolas Livres, Essa escola é ocupada, entre outros. Conversando com o pessoal por lá, pude entender a maneira inteligentíssima com que eles se organizaram e como, inclusive, estão servindo de exemplo de organização para outras escolas (do interior e litoral paulista também). Passei uma boa parte da tarde lá e a circulação de pessoas era imensa, tanto de estudantes se revezando, como da vizinhança simplesmente questionando suas necessidades básicas e retornando com sacolas e mais sacolas de compras de mercado.

Aviso: não vá lá esperando por respostas rasas. Os ocupantes sabem exatamente do que estão falando, sabem dos seus direitos e das realidades de sala superlotadas, desemprego de funcionários, a dificuldade de trabalhar e estudar ao mesmo tempo (sim, muitos deles trabalham e estudam), a mídia desvirtuosa, policiais detendo estudantes, bombas de gás lacrimogêneo nos atos… e por aí vai.

Aqui nesse post, ao invés de enfatizar a atitude dos nossos governantes e da polícia (sem tirar a importância desse conhecimento), optei por ressaltar toda essa atitude maravilhosa de crianças e adolescentes, dando um tapa na cara da educação tradicional ordinária que esse país tem, mostrando pra todo mundo, toda a força de vontade, senso crítico, de justiça e vontade de aprender. Mostrando acima de tudo que o povo tem voz e povo é todo mundo: mulher, homem, avós, pais, homossexual, heterossexual, negro, branco, índio, criança, adolescente…

Ao ponto de quase achar que a humanidade estava perdida com a alienação da nova geração virtual… Meu peito se encheu de esperança e alegria ao sair na rua e poder presenciar cada ato e essa lição incrível.

Restou à mim e mais 3 amigas que estavam lá comigo (todas também crocheteiras), oferecer nosso apoio e ajuda no que puder, atividades, oficinas de artes manuais, debates sobre ocupação de espaços públicos e o que mais pudermos.

Aqui, fica um vídeo de uma cena que presenciei logo que cheguei por lá e também um pedido: procurem por escolas ocupadas próximas à vocês e apoiem, colaborem.

Aqui tem o link com o mapa das escolas e listas de necessidades.
Aqui tem link do evento do ato de sábado na Avenida Paulista.
Aqui é o facebook do Jornalistas Livres, página onde o pessoal está se organizando pra delatar e registrar todos os movimentos da mídia e também de agressões e/ou contra as ocupações.

Vamos juntos! #ocupaescola #nãofecheminhaescola

 

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2 comentários sobre “A educação que vi nas escolas

  1. Pingback: #ocupacomfios |

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